CAMPEÃO MINEIRO DE 1987, Foi quase igual ganhar uma Libertadores (entenda o porque)

Como mensurar o tamanho de um título para um clube? Vamos lá.

Podemos utilizar dos seguintes argumentos:

    • Importância da competição
    • Dificuldades da competição
    • Rentabilidade da competição
    • Importância histórica da competição

Acredito eu que todos são bons argumentos. Não tem como negar que historicamente, o título de 1966 colocou o Cruzeiro no hall dos times gigantes do Brasil. Afinal detonamos o Santos de pele e cia.

É inegável também que o título da libertadores de 1976 foi algo espetacular para o clube. Afinal o único time brasileiro que havia conquistado a competição internacional era o tal famigerado Santos de quem? De Pelé. O Cruzeiro foi lá e cravou seu nome no futebol internacional.

A Supercopa de 1991, alguém ai tem alguma dúvida do quanto foi valiosa essa conquista? Ainda mais da forma que foi. Goleando o River no Mineirão! O mesmo pode ser dito no primeiro título do Cruzeiro na Copa Do Brasil, em 1993, em cima do Grêmio. Foi emocionante, lutado, chorado e como eu falei antes, foi o primeiro, como esquecer.

A segunda conquista nessa mesma competição, também foi algo para entrar no coração do torcedor e não sair mais. Batemos o todo poderoso Palmeiras, que era tido como uma seleção e o melhor, de virada e dentro dos domínios do adversário.

E a conquista da Copa do Brasil de 2000!!!! Acho que nem precisa falar nada. Aquele gol do Geovanni no apagar da luzes… Foi teste para cardíaco.

Aí em 2003 veio a nossa redenção. Levantamos o caneco que nos faltava, o de Campeão Brasileiro e com um time de dar inveja a todos os torcedores do Brasil. Alex e cia deram espetáculo naquele ano.

Veio o bicampeonato do Cruzeiro na competição nacional (2013/14), mais motivos para entupir o torcedor de orgulho. O Brasileirão é um campeonato dificílimo, conquista-lo por duas vezes seguida… são para poucos. Tanto que na era dos pontos corridos, só o Cruzeiro ousou se intrometer no meio dos times do eixo Rio e São Paulo na busca pela taça.

Bão! Acho que todos concordam com os argumentos apresentados. Pois é! Então vou lhes apresentar um título pouco badalado, de um campeonato sem muita importância, o Mineiro, mas que… Putz!!! Foi bom demais te-lo conquistado.

Nobres amigos, o Cruzeiro viveu a era das trevas na década de 80. Depois de tempos grandiosos com os times mágicos de 60 e 70, veio a terrível entre safra, a época das vacas magras.

Acreditem, de 1980 a 1989 conquistamos apenas dois títulos. Dois míseros Campeonatos Mineiros. Um em 1984 e outro em 1987.

O de 1984, na final, detonamos o rival por 4 a 0 no jogo de ida, na volta deu eles, 1 a 0. Numa cara de pau sem tamanho, o Atlético alegou que o placar mínimo que tinham feito no jogo da volta, tinha o mesmo valor que o sapeca que a raposa tinha dado na primeira partida. Resultado, a decisão foi parar na justiça.

A pendenga judicial demorou mais de dois anos, mas no fim o Cruzeiro foi declarado campeão. Evitando assim o sétimo titulo consecutivo do rival.

Coisa chata, ganhar e ter que esperar mais de dois anos para comemorar.

Nos anos de 1985 e 86 deu os caras. Olhem bem como a fase era critica, olhem os nosso times nesses dois anos:

Escalações

1985: Gomes, Carlos Alberto, Geraldão, Ailton (Eugênio) e Ademar (Luiz Cosme); Douglas, Eduardo (Quirino) e Tostão (Orlando); Carlinhos, Mirandinha e Edu (Robson). Técnicos: João Francisco (8), Moraes (33)\

1986: Luiz Antônio (Gomes), Balu, Geraldão, Gilmar Francisco e Ademar; Douglas (Andrade), Eduardo (Elder) e Jorge Mendonça (Quirino); Gil, Ronaldo Sereno (Seixas), Edson. Técnico: Procópio (12) e Jair Bala (18)

Dureza né? Pois é.

O time que entrou em campo no jogo decisivo do título de 1987, no Mineirão: Ademir, Balu, Vilmar, Genilson, Gilmar Francisco e Gomes; Robson, Vanderlei, Careca, Douglas e Edson

De pé: Ademir, Balu, Vilmar, Genilson, Gilmar Francisco e Gomes. Agachados: Robson, Vanderlei, Careca, Douglas e Edson

Então veio o ano de 1987. A formula de disputa do Campeonato Mineiro era a seguinte:

Dividido em dois turnos distintos. Cada turno teve uma fase de classificação com todos se enfrentando. Os quatro melhores se classificavam para uma fase semifinal: o primeiro colocado enfrentava o quarto colocado e o segundo colocado enfrentava o terceiro colocado.

As semifinais foram disputadas em jogo único no mando de campo da equipe com melhor campanha no turno. Uma prorrogação de 30 minutos estava prevista nos jogos pelas semifinais, caso o empate prevalecesse no tempo normal. O time de melhor campanha tinha a vantagem do empate na prorrogação.

Os vencedores dos confrontos da semifinal fizeram a disputa pelo título do turno, também em jogo único. Os vencedores de cada turno disputaram o título estadual em dois jogos. (Fonte: Almanaque do Cruzeiro)

E como quase sempre acontece, deu Cruzeiro e Atlético na decisão.

Só que o Cruzeiro vinha com um time mudado. No meio contávamos com o recém contratado Ademir, exímio volante, baita ladrão de bolas. Tínhamos Careca, jogador de força e velocidade que jogava do meio para frente, Hamilton, atacante voluntarioso e oportunista, Robson e Edson em grande fase, enfim, tínhamos um bom time.

O que pegou é que até chegar a decisão do Mineiro o Cruzeiro teve seis, isso mesmo, seis treinadores. Carlos Alberto Silva, Raul Plassmann, João Avelino, Toninho de Jesus (era preparador físico da equipe), Paulinho de almeida e por fim Ruy Guimarães que era técnico da equipe Júnior.

Vamos para a decisão. No primeiro jogo, que aconteceu no dia 29 de julho de 1987, no Mineirão, 0 a 0. A treta ficou para a segunda partida.

No dia 2 de agosto de 1987, o Cruzeiro entrou em campo para enfrentar o Atlético com o seguinte jogadores. Gomes; Balu, Vilmar, Gilmar Francisco e Genílson; Douglas, Ademir e Careca; Robson, Vanderlei e Edson.

Quando o árbitro Nei Andrade Nunes Maia, BA, apitou o inicio da decisão… amigo…

O jogo foi muito disputado, mas com lealdade. Até que no finalzinho do primeiro tempo, o lateral adversário, Jorge Luiz, deu uma entrada criminosa em Vanderlei. (no intervalo foi constatada uma fratura na perna do atacante do Cruzeiro) Pronto, ânimos muito acirrados.

Curiosidade. Reparem no vídeo publicado, olhem como a imprensa trabalhava. Vanderlei se contorcendo em dores no gramado e o reporter ao seu lado fazendo perguntas. S E N S A C I O N A L.

Veio a segunda etapa e logo no primeiro minuto, gol do Cruzeiro. Hamilton que tinha entrado no lugar de Vanderlei fez um corta luz para Careca, que soltou uma pancada de fora da área no angulo de João Leite, golaço. E a partir daí… o pau cantou desembolado, como vocês vão poder constatar no vídeo publicado.

Balu e Renato Morungaba foram expulsos, depois foi a vez de Edson e Sergio Araújo (expulsão injusta do jogador do Cruzeiro, ele foi agredido e nada fez).

Com o passar do tempo a tensão do jogo ficava cada vez maior. O rival quase empatou a partida, Gomes rebateu uma bola chutada por Marquinhos, na sobra, Zenon mandou a bola na trave.

Aos 48 minutos aconteceu um fato curioso.O Árbitro marcou um impedimento do Atlético, várias pessoas que estavam no estádio, acharam que a partida tinha chegado ao fim. Aí foi reporter invadindo campo, torcedor, comissão técnica… a policia teve uma trabalheira para tirar a turma de campo.

Quando a bola rolou novamente, veio o alívio para a torcida mais apaixonada do estado. O goleiro do Cruzeiro, Gomes, deu uma bica para o ataque adversário, o zagueiro Atleticano Luisinho, falhou em duas cabeçadas e aí amigo, a bola sobrou na entrada da área para Robson, que fuzilou as redes de João Leite. Caixão fechado.

Minutos depois o arbitro baiano colocou fim ao jogo e finalmente time e torcida puderam comemorar o título de Campeão Mineiro do ano de 1987.

Talvez, para você que é mais jovem, essa conquista suada… não tem valor nenhum! Até entendo, afinal vocês nasceram em uma época que o Cruzeiro não perdoava, ganhava tudo.

Mas olha, para a turma que acompanhou fielmente o Cruzeiro na década de 80, esse título foi de lavar a alma. Foi tão bão, como conquistar uma Libertadores.

Rodrigo Genta

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